segunda-feira, abril 30, 2007

Onde mora a minha infância

E lá estava eu, na frente da minha casa. O portão, que parecia tão alto, agora é menor do que eu. A rampa da garagem, de azulejos escorregadios, não é tão inclinada quanto eu me recordava. A rua é bem mais estreita do que na minha memória, e a casa, que só de olhar traz milhares de recordações, faz, hoje, visivelmente parte do meu passado.

Cresci em uma cidade no interior de São Paulo, Sorocaba. Desde que saí de lá, com 12/13 anos, nunca mais havia passado na frente da casa onde vivi. E ela parecia tão grande... Final de semana desses, tive que ir a trabalho a São Paulo, e o meu primo irmão, que é mais irmão do que primo, me levou até lá - mesmo não estando muito legal. O desafio era entrar na cidade sem mapa, saber andar pelas ruas. E não é que a gente se saiu bem? Minha memória de menina aficionada por carros, cujo sonho era dirigir, tinha quase todas as ruas da cidade decoradas na cabeça.

O calor típico da região fez com que uma chuva grossa caísse lá pelas tantas. E foi então que eu me lembrei da "chuva de banho de chuva". Era aquela que cai em 90° do céu e mata o calor na hora, sem fazer sentir frio. Que molha e diverte, próxima ao pé de maracujá, cheio de flores e "mamangavas", que vinha por cima do muro lá da casa da vizinha.

Toco a campainha, e uma senhora sorocabana abre a porta com olhar desconfiado.
- "Boa tarde..."
- "Oi, dona Jura. Tudo bem? A senhora lembra de mim?"
Mais desconfiada ainda, procurando as câmeras da pegadinha, dona Jura responde que não. Claro que não, uma menina baixinha, de cabelos castanhos claros, gordinha, cresceu e se tornou uma mulher loira de 1,73 de altura... Dona Jura e seu Santo fazem parte da minha infância e da vida da minha família, e estão lá, ao lado da casa da Fernando dos Santos, 117. Foi impossível dar tchau sem chorar muito e dizer o quanto eles foram e são importantes para nós, para mim.

Passeando pela cidade, via que cada local reservava uma lembrança: o filme que assisti no cinema de rua, o braço que quebrei quando caí ali, a calçada em que eu andava de bicicleta...

Foram três horas de visita, com direito a almoço na melhor churrascaria. E nessas três horas eu pude visitar o local aonde mora a minha infância. Um lugar quente, seco, e com uma chuva grossa que cai reta do céu, para matar a mais genuína vontade de ser feliz.

7 comentários:

Cássia disse...

Que lindo, Carol! Muito lindo.

Anônimo disse...

Lindo mesmo.
Perséfone já era, preciso te avisar. Fiz um blog novo, se quiser atualizar seu link, o novo é:
http://meldosol.wordpress.com
No velho tem o motivo e o novo já tem o link do teu blog.
Escreva mais, seus leitores sentem falta ;-)
Melissa

Carol disse...

Já está atualizado!
Valeu pela visita, Melissa. ;)

Beijos,

Carol

Anônimo disse...

muito lindo :)
beijos tica

giuliano disse...

Preciso prestar mais atenção nos detalhes da vida. Moro aqui há 30 anos e nunca percebi que a chuva grossa cai reta do céu.
Beijos, belo texto e lembre-se que você me deve uma visita.

Carol disse...

Oi, Giuliano, pode cobrar a dívida!
E a chuva é única mesmo, e o cheiro que fica no ar também!
Beijos e curte os detalhes de Soroca!
Carol

Renata disse...

Amiga!! Amei!! Muito lindo! Me emocionei e também lembrei de onde mora a minha infância, essa parte tão maravilhosa da vida da gente!

Beijoooo!!